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IL BUCO NERO

28 Abril, 2008 · Deixe um comentário

por  Raphael Bruno, colaborador, jornalista e cientista político

O presidente francês Nicolas Sarkozy não está mais sozinho. Em tempos de baixa popularidade, ele não precisará mais levantar isoladamente, nos grandes países europeus, a bandeira da direita. Não. Pois uma figura incontáveis vezes mais megalomaníaca do que ele acaba de ser eleita pela terceira vez para comandar a Itália. Por uma margem estreita de votos, Sílvio Berlusconi é novamente primeiro-ministro do país.

Quem se impressionou com a forma clara e descontraída com que Sarkozy assumia para si a direita política não conhece o controverso Berlusconi. Na Itália, ele é uma espécie de combinação explosiva entre Roberto Marinho, Paulo Maluf, Eurico Miranda e Antônio Ermírio de Moraes. É o homem mais rico do país, controla a maior parte da mídia italiana, a Justiça está sempre no seu encalço e é dono do poderoso clube de futebol A.C. Milan. Politicamente, nem mesmo Sarkozy consegue se equiparar a ele em termos de eficiência na implantação do programa da direita européia, que consiste basicamente no tripé submissão aos Estados Unidos/combate a imigração/desregulamentação da economia. Para se ter uma idéia, por diversas vezes Berlusconi atraiu para si o apoio de grupos neofascistas. Em nenhuma delas se envergonhou de aceitá-lo.

O fracasso da esquerda é exemplar. Não há um cidadão italiano que hoje não conheça em detalhes todas as falcatruas de Berlusconi. Mas, no poder, o ex-primeiro-ministro do Partido Democrático, herdeiro do famoso Partido Comunista Italiano, Romano Prodi, não fez lá muita coisa para se diferenciar das políticas da direita. Como, aliás, já é de praxe nos antigos partidos social-democratas, socialistas e comunistas da Europa. Pelo contrário, fez de tudo para se igualar a ela. Manteve, em grande medida, o apoio italiano às aventuras bélicas de Bush. Promoveu uma dura reforma da previdência. Tudo com o apoio dos sindicatos burocratizados sob seu comando, claro.

Ora, se é para perseguir o programa da direita, que o faça um dos seus grandes líderes, Berlusconi, que possui muito mais legitimidade para tanto do que um ex-comunista. A força de Berlusconi é tamanha na Itália que partidos que poderiam representar uma opção mais à esquerda do Partido Democrático, como os verdes e a Refundação Comunista, optaram por apoiar o governo de Prodi com medo de que acontecesse justamente o que aconteceu: a queda da coalização de centro e a volta de Berlusconi. Ao fazê-lo, se anularam como alternativa política. Receberam menos de 5% dos votos. Estão fora do Parlamento italiano. Ou seja, na prática, Berlusconi funciona como essa gigantesca força gravitacional capaz de puxar quase todo o eixo político para a direita. Algo como um poderoso buraco-negro. Que acabou de engolir a todos.

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