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2 respostas Até agora ↓
Zé Afrânio // 27 Março, 2008 às 5:18 pm |
McCain, o candidato escolhido pelo Partido Republicano para disputar a presidência com os Democratas, tem dito aos quatro ventos que se for eleito manterá a ocupação no Iraque até ninguém tenha mais dúvidas que os EUA sairam vencedores da aventura inciada por Bush. Comenta isso sem mencionar um só instante o que pensa a sociedade em que vive sobre a quantidade de soldados americanos mortos na guerra, ou sobre os bilhões de dólares gastos para apoderar-se das reservas iraquianas de petróleo.
Com a crise dos “subprimes” e do sistema financeiro daquele país, podemos imaginar dificuldades para o candidato, até porque não vemos solução rápida da quase recessão nos EUA. Ou seja, um voto no McCain é um voto na guerra.
Zé Afrânio // 2 Abril, 2008 às 8:45 am |
Evo Morales e a Bolívia
Evo do latim aevu quer dizer eternidade, perpetuidade. Num país de quíchuas, aimarás, cholos e mestiços, com pouco mais de 15% de brancos, os 500 anos desde seu descobrimento realmente representam um tempo muito elástico, quase uma eternidade, até que os povos originários pudessem chegar ao poder. Nada mais simbólico do que o sonho e a posse de um indígena num país como a Bolívia.
A nacionalização, ou que termo se dê ao decreto emitido pelo presidente da Bolívia, não pode ser vista como ilegítima, por mais que afetem os interesses econômicos brasileiros, em especial da Petrobrás. Evo não enganou ninguém, fez exatamente aquilo que se comprometeu na campanha eleitoral plenamente divulgada pelos meios de comunicação e o que esperavam todos os bolivianos. A nacionalização decretada contempla os anseios de mais ou menos 9 milhões de pessoas que vivem com uma renda “per capita” anual de não mais de U$ 2,7 mil, numa região em que mais de 60% da população vive abaixo da linha de pobreza. Neste sentido aquele presidente deu uma satisfação ao seu eleitorado e á população em geral, sem enganar ninguém.
A operação montada por Morales tem precedentes no método, mas a ocasião é única e assim deve ser avaliada. Desde os Incas, é a primeira vez que a Bolívia é governada por um de seus povos originários e, talvez, desde o Tratado de Petrópolis (Acre) há uns 100 anos atrás, seja a primeira vez que as relações bilaterais com o Brasil estejam tão umbilicalmente ligadas nos seus interesses econômicos. Ambos países são dependentes dos recursos naturais em questão, aquele país pela renda que conseguem auferir de seu sub-solo num lugar de poucas outras alternativas, e o Brasil por conta da política adotada de substituição do combustível em São Paulo, em especial nas indústrias. Some-se á isto a necessidade gerada pela frota nacional de veículos, quando muitos usuários adotaram o gás natural veicular, que além de econômico atenua o impacto ambiental.
Neste momento das relações políticas na América do Sul, compete ao governo brasileiro fazer aquilo que os brasileiros esperam dele, assim como foi entre os bolivianos, defendendo os direitos e interesses nacionais onde estiverem, em especial os econômicos que tanto repercutem na sociedade brasileira, destinatária final dos custos derivados de ocorrências dessa natureza. Por mais que se queira adotar uma política de parceria no continente, a concessão brasileira não pode representar aumento de despesa no bolso do contribuinte, nem prejudicar o planejamento das empresas que fizeram a opção pelo gás em suas caldeiras, crentes que a política adotada estava sólida em seus fundamentos e contingências.
Vamos dar as mãos para os vizinhos, compreendê-los em nome de uma América Latina unida, mas não podemos nos deixar levar pelo populismo em terra alheia e pela irresponsabilidade com o patrimônio de uma empresa como a Petrobrás. Se verificarmos que poderá haver prejuízo ao investimento nacional feito naquela região, medidas compensatórias devem ser adotadas na mesma proporção. Uma coisa é nacionalizar os recursos naturais, outra bem diferente é apropriar-se de ativos estrangeiros.
Num segundo passo de sua gestão, o presidente boliviano sugeriu um referendo para ratificar seu mandato, a fim de atenuar as críticas internas á sua condução dos assuntos relacionados com a Assembléia Constituinte. Afirma que se a votação contrária á sua permanência tiver apenas um voto a mais do que a quantidade de votos que teve para se eleger, convocará imediatamente novas eleições no país.
Sinal de fraqueza. Como pode alguém que detém o mandato e o poder legítimo da presidência, disponibilizar quatro anos desta forma? Sua idéia com essa medida visa contornar os graves confrontos que se deparou quando não conduziu sabiamente o formato de discussão da nova constituição, em especial dos governadores opositores de algumas localidades, com os quais não existe consenso. Também pretende estender, sem consultar os interessados, aos demais mandatários das províncias.
Seus opositores convocaram a Igreja, a OEA e a ONU, visando comprovar que existe uma promoção da violência política no país, similar ao que ocorreu na Venezuela. Também assim como ocorreu com Chávez, Evo arvora-se de defensor de uma parte do povo como se fosse a totalidade.
Submete também a reeleição indefinida, afirmando que não descansará enquanto não for aprovada. Uma coisa é se pretender uma constituição de acordo com suas deliberações autônomas, outra é impor condições prévias para que ela ocorra.
Sua posse teve um significado maior que foi a tomada do poder por um descendente dos povos originários daquela região, mas a sede ao pote e o intento de recuperar séculos de abandono do povo indígena, poderá levá-lo ao fracasso.
Infelizmente, sua inabilidade poderá levar a Bolívia para uma guerra civil.
Existe uma expressão boliviana em pouco pejorativa que expressa mais ou menos essa ocasião que é “soltou o índio”, que na realidade significa dar uma de maluco, liberar o índio que está dentro de si. Evo, nos dois casos, liberou geral.